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quinta-feira, dezembro 18, 2008

"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante(...)"

Caio F. Abreu


E repito eu:

que seja doce

que seja doce

que seja doce

que seja doce

que seja doce

que seja doce

Trocaria a memória
de todos os beijos que me deste
por um único beijo teu.
E trocaria até esse beijo
pela suspeita de uma saudade tua,
de um único beijo que te dei.
Miguel Esteves Cardoso
"Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura de ser feliz"

Vanessa da Mata

quarta-feira, novembro 26, 2008


E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.

Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.

Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.

Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.


Miguel Sousa Tavares


Metade

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimento
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo


Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
e a outra metade um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
e a outra metade não sei


Que não seja preciso mais que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço


Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é a canção



E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.


Oswaldo Montenegro

terça-feira, setembro 30, 2008

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo.
Clarice Lispector

terça-feira, setembro 23, 2008


chego ao amor como quem entra na água.

as mãos à frente, cego.



al berto

sábado, setembro 13, 2008


escreve a não ser

as vogais do silêncio. E este

é o nome que se dá à ausência,

quando a noite e a poeira

dos astros pousam

sobre a ranhura dos olhos.



Albano Martins

domingo, setembro 07, 2008

"Disse que havia duas maneira de partir:
uma era ir embora,
outra era enlouquecer"
Mia Couto

Chama-me se quiseres


Talvez a porta se abra
se disseres o meu nome devagar. Di-lo
mais uma vez dentro da minha boca,
a trocar o corpo com o meu.
Assim, antes que eu parta,
outra vez, de vez,
para um lugar qualquer
onde mais não se espere o que não volta.

Maria Rosário Pedreira

sábado, setembro 06, 2008

Sempre



«Sempre» , dizes, como se o tempo

fosse para além do que somos,

e o que somos não se perdesse em cada

canto em que nos perdemos.


Nuno Júdice

quinta-feira, setembro 04, 2008

Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.
(...)
E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.
Caio Fernando
Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

hesito nas palavras...



hesito muito antes da palavra.

porque um precipício se abre nela

e não tem sentido, vibra apenas.

porque pode ser a morte

ou o nascimento para um lugar

de cores e fadas e barcos de sol.

porque me doem as mãos

cada vez que tento segurar

o mundo em traços redondos quadrados.


por isso te digo: hesito e morro e nasço.

e corro para a rua com força de quem

vai anunciar gritar chamar dizer.

mas lá fora sorrio apenas

enquanto caminho para um banco

de jardim, devagarinho,como se por um momento

eu soubesse o nome de tudo

e tudo tivesse o mesmo nome.


Vasco Gato

segunda-feira, setembro 01, 2008

Mas que queremos da vida?..


É a vida?
O que se procura em cada segundo para se perderem cada segundo? O tempo, assim, de nada nos serve. Um dia, dando por nós próprios,
perguntamo-nos o que fizemos, por onde andámos, que cidades e casas percorremos,sem que uma resposta nos satisfaça.
A vida, então, limita-se a ser o que fez
de nós, sem que o tenhamos desejado, e
nada pode ser feito para voltar atrás, nem
para restituir os passos trocados de
direcção, as frases evitadas no último
extremo, o olhar que se desviou quando
não devia. Ah, sim - e o amor? É isso
que queremos da vida? É verdade: cada um
dos abraços que se deram, contando cada
instante; o rosto lembrado no auge do
prazer, quando um súbito sol desponta
dos seus lábios; os cabelos presos nas
mãos, como se elas prendessem o feixe
da eternidade... Assim, a vida poderá
ter valido a pena. É o que fica: o que
nos foi dado e o que damos, sem que nada
nos obrigasse a dar ou a receber, o puro
gesto do acaso na mais absoluta das
obrigações. Então, volto a perguntar: que
outra coisa queremos da vida?
Nuno Júdice

domingo, agosto 24, 2008

I say


Are you here

for the party

or

are you here

for the pain?


Soulcoughing

Abraço



Há abraços que nos atiram pelo tempo adentro, para onde já estávamos antes de dizer a primeira palavra, bem, ou, pelo menos menos mal, mas sem saber.


Miguel Esteves Cardoso
Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que nunca perdi.
toranja